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  • Esclarecimento Meteorológico: Fenômeno em Alfredo Wagner de ser Classificado como “Tromba Terrestre” (Landspout)

     


     

    Esclarecimento: Fenômeno em Alfredo Wagner é Classificado como “Tromba Terrestre” (Landspout)

    Professor Reinaldo Haas UFSC (reinaldo.haas@ufsc.br)

     

     

    Em referência ao fenômeno climático que surpreendeu moradores da comunidade de Santa Bárbara, em Alfredo Wagner, na Serra Catarinense, na tarde do último domingo, 21 de setembro de 2025, por volta das 14:50Z, e que gerou repercussão ao ser inicialmente classificado como um “tornado”, a presente nota visa esclarecer a classificação técnica correta do evento sob um cenário meteorológico peculiar e suas possíveis relações com a geomorfologia local. (Fonte: NotiSerraSC)

    O fenômeno observado não foi um tornado típico (mesociclônico), mas sim uma “tromba terrestre” ou landspout. Esta classificação, proposta pelo meteorologista Howard B. Bluestein em 1985, refere-se a um tipo de tornado que se forma de maneira diferente dos tornados clássicos, que estão associados a supercélulas de tempestade e dependem de um mesociclone na nuvem.

    Diferença Crucial na Origem da Rotação em Cenário Orográfico

    Neste caso específico, a dinâmica envolveu uma interação complexa com a topografia da Serra Geral e uma linha de instabilidade em processo de enfraquecimento:

    • Interação da Piscina Fria com o Relevo: A piscina fria, da linha de instabilidade, ao descer a encosta íngreme da Serra Geral, pode ter gerado um “ressalto hidráulico” na base da serra, criando uma zona de intensa turbulência e ascensão de ar proximo da montanha. A frente de rajada desta piscina fria, ao convergir com o paredão, criou as condições de cisalhamento ideais para a formação de um vórtice axial (um “rolo” de ar com eixo horizontal). Este foi o ingrediente fundamental que, ao ser “inclinado” pela corrente ascendente (updraft) formada nessa mesma zona de convergência, transformou a rotação horizontal em vertical.
    • Linha de Instabilidade Colapsando e o Papel do Granizo: A linha de instabilidade que passava pela região estava em processo de colapso. Dentro das células convectivas, o peso da precipitação (chuva e, crucialmente, granizo – os hidrometeoros) e o intenso resfriamento do ar causado pelo seu derretimento/evaporação, anulam a sustentação da corrente ascendente. Isso gera uma forte flutuabilidade negativa, resultando em uma corrente descendente (downdraft) violenta.
    • Gradiente de Flutuabilidade e Queda de Pressão: O contraste agudo entre o ar extremamente frio e denso do downdraft (carregado de granizo) e o ar mais quente do ambiente cria um forte gradiente de flutuabilidade. Dinamicamente, esse gradiente está associado a uma acentuada queda de pressão não-hidrostática em superfície, logo abaixo do núcleo descendente. Essa baixa pressão pode intensificar a convergência de ar para o vórtice, fortalecendo a rotação.

    Este mecanismo de formação explica por que, em muitas ocasiões, as trombas terrestres ocorrem sem as assinaturas de radar típicas de tornados severos (como o “eco em gancho”), pois a rotação se origina na superfície, impulsionada por interações com o relevo e esticada por um updraft local, mesmo que a instabilidade sinótica maior esteja em declínio.

    Relação com Trombas D’Água, Torós e Formações Geológicas

    A análise dos landspouts permite estabelecer paralelos interessantes com os torós ou trombas d’água — aqui entendidos no sentido de chuvas intensas. Embora o evento observado em Alfredo Wagner não se enquadre exatamente como um toró, o mecanismo de formação apresenta notável semelhança: a rotação se inicia na superfície e é esticada pela corrente ascendente de uma nuvem convectiva.

    O termo toró, de origem guarani e natureza onomatopeica, é registrado nos dicionários como “chuva forte como um jato d’água”. O nome remete também ao som produzido pelo fenômeno: o “to” rememora o estampido semelhante a um trovão, resultante do colapso da água e do granizo ao gerar um vácuo e uma onda de choque; já o “ró” sugere o impacto da precipitação contra o solo, capaz de cortar, fraturar e erodir as superfícies atingidas.

    O toró pode ser entendido como uma manifestação complementar a sistemas como o de Alfredo Wagner. Nessa hipótese, o granizo precipitado dentro da coluna de ar em rotação intensificaria a ação erosiva sobre encostas. Na ultima fotografiada reportagem citada, é possível notar visualmente hidrometeoros (provavelmente uma cortina de chuva e granizo) no centro do vórtice em estágio de dissipação, evidenciando o transporte de precipitação pela corrente descendente.

    No caso específico de Alfredo Wagner, entretanto, não foram relatadas chuvas ou granizos significativos nem o som típico do Toró. A ausência desses elementos, associada ao fato de o fenômeno não ter incidido diretamente sobre penhascos ou superfícies rochosas expostas, impediu a ocorrência de processos erosivos mais marcantes.

    Ainda assim, a Encosta da Serra Geral, onde se insere Alfredo Wagner, abriga diversas lagoas naturais e formações circulares em platôs. Assim é plausível que muitas dessas feições, incluindo todo nosso relevo abrupto, tenham sido geradas — ou pelo menos moldadas — pela ação persistente de torós associados a fenômenos de vento em rotação, semelhantes aos torós, ao longo de milhares de anos. A energia concentrada desses eventos teria escavado depressões localizadas, posteriormente preenchidas por água, originando assim parte das atuais formações lacustres da região.

     


    Glossário de Termos Meteorológicos e Geomorfológicos

    CAPPI (Constant Altitude Plan Position Indicator)

    • Tradução: Indicador de Posição em Plano de Altitude Constante.
    • Descrição: É um produto de radar meteorológico que mostra a intensidade da precipitação em um “corte” horizontal da atmosfera a uma altitude fixa (ex: 2 km, 3 km). É útil para eliminar a contaminação do sinal por ecos de solo em áreas montanhosas e para observar a estrutura da tempestade acima da superfície.

    Cisalhamento do Vento (Wind Shear)

    • Descrição: É a variação da velocidade e/ou direção do vento com a altura. É um ingrediente fundamental para a organização de tempestades e para a geração de rotação (vorticidade) na atmosfera.

    Corrente Ascendente (Updraft)

    • Descrição: É uma corrente de ar que se move de baixo para cima dentro de uma nuvem convectiva (tempestade). É o “motor” da tempestade, responsável por alimentar a nuvem com ar quente e úmido da superfície, permitindo a formação de gotas de chuva e granizo.

    Corrente Descendente (Downdraft)

    • Descrição: É uma corrente de ar frio que desce de dentro da nuvem em direção ao solo, geralmente arrastando a precipitação consigo. É formada pelo resfriamento do ar devido à evaporação da chuva. Quando muito intensa e concentrada, é chamada de Downburst ou Microburst.

    Frente de Rajada (Gust Front)

    • Descrição: É a borda de ataque ou a frente do ar frio (piscina fria) que se espalha pelo solo a partir de uma tempestade. A passagem de uma frente de rajada é marcada por uma súbita mudança na direção e um aumento na velocidade do vento em superfície.

    Landspout (Tromba Terrestre)

    • Descrição: Um tipo de tornado que não se origina de um mesociclone pré-existente na nuvem. Sua rotação começa perto do solo, em uma zona de convergência ou cisalhamento, e é esticada verticalmente por uma corrente ascendente de uma nuvem convectiva em desenvolvimento. Frequentemente, está associado a limites como frentes de rajada ou a interações com o relevo.

    Linha de Instabilidade (Squall Line)

    • Descrição: É uma linha longa e organizada de tempestades, muitas vezes com centenas de quilômetros de extensão. Veja também Sistema Convectivo Quase-Linear (QLCS).

    Mesoalta (Mesohigh)

    • Descrição: Uma região de alta pressão atmosférica em mesoescala (de poucos a centenas de quilômetros) que se forma na superfície, diretamente abaixo da área de precipitação de uma tempestade ou linha de instabilidade. É a assinatura em superfície da piscina fria.

    Mesociclone

    • Descrição: É uma área de rotação persistente e profunda (um vórtice vertical) dentro de uma tempestade severa do tipo supercélula. É a “mãe” dos tornados mais fortes e duradouros.

    Número de Froude (Fr)

    • Descrição: Na dinâmica dos fluidos, é um número adimensional que descreve a relação entre a inércia do escoamento (velocidade) e as forças de gravidade. É usado para determinar se um escoamento é supercrítico (Fr > 1, rápido e raso) ou subcrítico (Fr < 1, lento e profundo).

    Piscina Fria (Cold Pool)

    • Descrição: É uma “bolha” de ar frio e denso que se forma sob uma tempestade a partir da evaporação da chuva. Ao atingir o solo, espalha-se horizontalmente, criando a frente de rajada.

    PPI (Plan Position Indicator)

    • Tradução: Indicador de Posição em Plano.
    • Descrição: É a varredura mais fundamental do radar, mostrando a intensidade da precipitação conforme o feixe do radar gira 360 graus em um ângulo de elevação fixo. Mostra uma visão cônica da atmosfera.

    Refletividade

    • Descrição: É a medida da quantidade de energia do pulso de radar que é refletida de volta para a antena pelas partículas de precipitação (chuva, granizo, neve). É expressa em decibéis (dBZ) e, quanto maior o valor, mais intensa é a precipitação.

    Ressalto Hidráulico (Hydraulic Jump)

    • Descrição: Um fenômeno que ocorre quando um escoamento supercrítico (rápido e raso) transita abruptamente para um escoamento subcrítico (lento e profundo). Em meteorologia, pode ocorrer quando uma piscina fria desce uma montanha e encontra um terreno plano, gerando uma zona de extrema turbulência e ascensão de ar.

    Sistema Convectivo de Mesoescala (SCM)

    • Descrição: Um complexo de tempestades que se organiza em uma escala maior e persiste por mais tempo do que uma única célula de tempestade. Pode durar várias horas e cobrir uma área do tamanho de um estado.

    Sistema Convectivo Quase-Linear (QLCS)

    • Descrição: É um tipo específico de SCM que se organiza em uma linha ou arco, conhecido popularmente como linha de instabilidade.

    Sombreamento Orográfico (Bloqueio pelo Relevo)

    • Descrição: Um efeito que ocorre quando o feixe do radar é fisicamente bloqueado por uma montanha ou outra elevação. A área atrás da montanha fica em uma “sombra”, onde o radar não consegue detectar a precipitação, criando “buracos” ou áreas sem eco na imagem.

    Toró

    • Descrição: Termo popular, de origem guarani, para uma chuva torrencial, extremamente forte e concentrada, muitas vezes descrita como “uma cachoeira” ou “jato d’água”. No contexto da discussão, é associado a um downburst carregado de precipitação.

    Vorticidade

    • Descrição: É uma medida da rotação ou giro em um fluido. Pode ocorrer em um eixo horizontal (como um rolo) ou em um eixo vertical (como um pião ou um tornado).

     


  • Você sabe o que é toró?

     

    Toró: O termo, de origem tupi-guarani, significa “chuva forte como um jato d’água” e é amplamente empregado no Brasil para descrever precipitações intensas e de curta duração, frequentemente acompanhadas por trovões e raios.
    No decorrer de minha trajetória acadêmica, identifiquei que a redescoberta do fenômeno denominado “toró” representa uma das contribuições mais relevantes do meu trabalho. Em uma apresentação recente na American Geophysical Union (AGU), realizada em Washington, EUA, introduzi o conceito de “toró” como um novo tipo de risco atmosférico. Esse fenômeno, inspirado na tromba d’água regional, refere-se a uma precipitação extremamente localizada e intensa, responsável por provocar um tipo específico de erosão hídrica que deixa cicatrizes geomorfológicas retas nas encostas montanhosas.
    O ponto de partida dessa pesquisa foi um fenômeno extraordinário narrado por meu pai, Baldino Haas, ocorrido em janeiro de 2011. Na ocasião, um inexpressivo riacho em Vidal Ramos, SC, apresentou uma afluência maior que a do rio Itajaí, chamando atenção para os impactos das chuvas intensas e localizadas, chamado na época de tromba de água.
    Diferente de eventos como cloudbursts e rainstorms, o “toró” possui características hidrológicas e geomorfológicas específicas, como a “tromba” (erosão linear) em encostas e “trombudo” ou enchente cabeça de água nos rios. Esse termo foi incorporado à toponímia, mas seu significado se perdeu com o tempo.
    Em meio a esses eventos, é interessante notar que, no passado, o toró ou tromba de água era um fenômeno meteorológico bem conhecido pelos primeiros moradores de Blumenau, por volta de 1860. O som distintivo produzido por este tipo de chuva, muitas vezes semelhante a um trovejar contínuo, servia como um alarme natural para alertar a população sobre a iminência de chuvas torrenciais e o risco de enchentes.
    Esse conhecimento era transmitido pelos povos indígenas de geração em geração, desempenhando um papel crucial na preparação e proteção das comunidades contra as frequentes chuvas intensas. No entanto, com o tempo e a modernização dos métodos de comunicação e previsão meteorológica, essa sabedoria ancestral foi gradualmente esquecida, e o uso do som da chuva forte como alerta natural caiu em desuso. O esquecimento dessa prática tradicional destaca a importância de valorizar e preservar os conhecimentos locais e históricos, que muitas vezes são repletos de sabedoria e adaptados ao ambiente regional.
    Na moderna meteorologia, o termo “tromba d’água” está frequentemente associado a uma coluna de ar rotativa carregada de água que se forma sobre uma superfície aquática, geralmente durante tempestades. Essas trombas são fenômenos intensos e localizados que podem causar danos significativos quando tocam a terra.
    Curiosamente, tanto “toró” quanto “tromba d’água” têm suas raízes linguísticas no antigo Tupi. A palavra “toró” era originalmente dita como “tororó” ou “toromba”. No passado, esses termos foram ressignificados para descrever diferentes tipos de fenômenos meteorológicos intensos, refletindo o entendimento e a observação dos povos indígenas sobre o comportamento das chuvas na região. Essa ressignificação demonstra como a linguagem e o conhecimento ancestral se adaptam e evoluem, preservando a essência e a sabedoria enraizadas no tempo.

     

     


  • 21 anos do Furacão Catarina, 51 anos da Inundação de Tubarão e Lançamento de Livro

    Prezado público em geral,

    O Departamento de Física da UFSC convida para o evento de memória dos 21 anos do Furacão Catarina e dos 51 anos da Inundação de Tubarão, com o lançamento do livro “Harmonia e Tempestade”, do Professor Dr. Reinaldo Haas.

    Detalhes:

    • Organizador: Departamento de Física da UFSC
    • Evento: 21 anos do Furacão Catarina, 51 anos da Inundação de Tubarão e lançamento do livro “Harmonia e Tempestade”
    • Data: 28/03/2025
    • Horário: 19:00
    • Local: Auditório do EFI da UFSC em Florianópolis

    Entrada gratuita e com certificado de participação. Não é necessário inscrição.

    Contamos com a sua presença!

    Atenciosamente,

    Reinaldo Haas


  • Apresentação

    Bem vindo à Homepage do Prof Dr. Reinaldo Haas

    Uma breve introdução sobre você, destacando sua especialização em Meteorologia e sua experiência como professor no Departamento de Física da UFSC.

     Sobre Mim
    • Formação Acadêmica: Bacharelado em Física pela UFSC, Mestrado e Doutorado em Meteorologia pela USP.
    • Área de Expertise: Previsibilidade de Precipitação, Modelagem Numérica da Atmosfera, Dispersão de Poluentes, Física das Mudanças Climáticas.
    • Atuação Profissional: Professor, Pesquisador Associado, e Especialista em diversas linhas de pesquisa relacionadas às Geociências e Energias Renováveis.

    Projetos de Pesquisa

    Destacar projetos notáveis como:

    • Desenvolvimento de tecnologias de previsão para parques eólicos.
    • Monitoramento e previsibilidade de eventos extremos de chuva.
     Produções e Publicações

     https://lattes.cnpq.br/0514296503573709

    Pagina pessoal e

    http://eoclima.com

    Contato

    • E-mail: reinaldo.haas@ufsc.br
    • Endereço Profissional: Universidade Federal de Santa Catarina,
    • Departamento de Física – CFM
    • Laboratório de Clima e Meteorologia.
    • Sala FSC 233
    • Telefone: (48) 3721-2846